
Os tucanos são importantes dispersores na Mata Atlântica
“Como consequência da redução da cobertura florestal e da caça, perdemos dispersores de sementes de maior porte, sejam eles aves ou mamíferos, por serem mais sensíveis à degradação e também mais caçados pelo homem”, comenta Brancalion. Se os grandes dispersores somem das matas, sobram as aves e animais de menor porte, que não conseguem dispersar plantas com sementes grandes. “Na falta desses animais, as sementes das plantas que dependem de animais dispersores se concentram próximas à planta mãe, prejudicando a regeneração da espécie”.
O palmito juçara é bem conhecido por produzir o palmito, muito consumido na culinária brasileira e por isso hoje ameaçado de extinção. Na Mata Atlântica, o juçara é uma importante fonte alimentar para mais de 50 espécies de aves, como papagaios, sabiás, jacús, arapongas e tucanos. “Muitas aves grandes que consomem frutos são caçadas ou não sobrevivem ao desmatamento e a redução da floresta” relata Mauro Galetti.
Segundo Brancalion, se a mata não tem mais esse tipo de animal perde-se o principal dispersor dos frutos maiores, o que pode comprometer a perpetuação da espécie. “Isso resultou numa mudança genética dessas populações ao longo dos mais de cem anos de fragmentação e defaunação da Mata Atlântica, fazendo com que hoje populações de juçara em matas sem tucanos produzam sementes menores”, observa.
Coleta
O professor contribuiu com a coleta de sementes em campo e, além disso, buscou entender quais as consequências da redução do tamanho da semente para a planta. “Foram avaliadas as consequências ecológicas associadas à variação do tamanho da semente na espécie”, conta. “Então observou-se que, com a redução do tamanho, a semente fica mais vulnerável à perda d’água e corre mais riscos de morrer”.
A semente do juçara tem naturalmente alto teor de água e, se perder muito o líquido, morre rapidamente. “Da mesma forma como muitas outras espécies de florestas tropicais úmidas, as sementes de juçara não toleram a perda intensa de água, pois são adaptadas a ambientes com solo úmido o ano todo ou, pelo menos, na época de dispersão das sementes”, afirma Brancalion. “Sementes menores apresentam maior superfície de exposição, o que aumenta a intensidade de perda d’água em ambientes secos. Como as sementes de juçara são dispersas principalmente entre os meses de março a junho, período em que se inicia a estação seca, as sementes menores ficam mais vulneráveis”.
De acordo com o professor, “no cenário atual das mudanças climáticas globais, no qual tem-se observado um aumento na intensidade e duração de períodos secos em florestas tropicais úmidas, as sementes menores de juçara tendem a ficar ainda mais vulneráveis, prejudicando a perpetuação da espécie em matas sem grandes dispersores como os tucanos”.
O link para o artigo é http://www.sciencemag.org/content/340/6136/1086.full?sid=dd1b377f-2745-4998-9814-ae3dc140fddc. Além de Mauro Galetti e Pedro Brancalion, participaram da pesquisa Roger Guevara, do Instituto de Ecologia (Rede de Biologia Evolutiva), no México, Marina Côrtes, Milton Ribeiro, Abraão Leite, Fábio Labecca e Thiago Ribeiro, da Unesp, Rodrigo Fadini, da Universidade Federal do Oeste do Pará, Sandro Von Matter, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Carolina Carvalho e Rosane Collevatti, da Universidade Federal de Goiás, Mathias Pires e Paulo Guimarães Junior, do Instituto de Biociências (IB) da USP, e Pedro Jordano, da Estação Biológica de Doñana (Espanha).
* Publicado originalmente no site Agência USP.